06 Janeiro 2007

Processo de Bolonha

Embora não discordando da génese e dos propósitos do tão afamado quanto polémico Processo de Bolonha (pelo contrário, concordo que urgia a sua implementação em Portugal), repudio, em absoluto, a forma com tem vindo a ser aplicado no país, um pouco por todas as universidades e cursos.
A falta de informação sobre novos planos curriculares e novas formas de avaliação, entre outros, bem como as incertezas em torno da aplicação do 2º ciclo (parte da antiga licenciatura, agora reformulada, que atribuirá o mestrado), são de tal forma gritantes que mesmo os directores de diversos cursos não sabem, ainda, como tudo se vai processar. Pior ainda, para os cursos que entraram, já, este ano, no Processo de Bolonha, e cujos planos curriculares, equivalências em relação a cadeiras de anos transactos e modos de avaliação continuam, a meio do ano lectivo, a ser sistematicamente alterados.
Mas, de facto, quem mais irá sofrer com a implementação do Processo são aqueles estudantes que, tendo ingressado na universidade com a perspectiva de obterem uma licenciatura em determinado período temporal e sob moldes específicos, se vêem, agora, a braços com a dificuldade que é estar a meio do curso no ano de transição.

A este propósito, e por conhecer melhor o caso, refiro-me ao curso de Comunicação Social da Universidade do Minho (com a aplicação do Processo, no próximo ano lectivo, Ciências da Comunicação). Sendo uma licenciatura de 5 anos, passará, a partir de 2007/2008, a ser uma licenciatura de 3 anos com possibilidade de mais 2 anos para mestrado. Acontece que aqueles alunos que, este ano, se encontram no segundo ano, vão terminar a licenciatura já no próximo. Isto, dir-se-á, até poderia estar a ajudar os alunos, por terminarem o curso mais cedo. Esclareça-se, então. A licenciatura de 5 anos tinha (e tem) uma vertente mais teórica nos primeiros anos e componente prática em diversas áreas nos últimos anos. Além disso, supunha (e supõe) um estágio curricular a realizar no segundo semestre do último ano. Ora, os ditos incautos que ousaram concorrer para este curso no ano transacto, não terão as disciplinas de componente prática e não terão estágio, numa área em que estes são dois passos fundamentais para a adequada formação. A direcção do curso, no entanto, arranjou, já, forma de colmatar o problema. Uma semana (uma semana, vejam bem!) inteirinha de Workshops.

E eu fico-me a imaginar um possível diálogo entre um destes estudantes, depois de licenciado, e um futuro putativo empregador:

- “Ó Xôr Director! Tem aqui o meu currículo. Não tive aulas práticas nem estágio integrado, mas tenho aqui uns workshopzinhos que os Xôtores do curso fizeram o favor de arranjar…”

- “Ó meu caro candidato! É mesmo isso que eu ando à procura para este lugar. Alguém que tenha tido workshops em vez de disciplinas práticas e de estágio. Isso das disciplinas e dos estágios já saiu de moda. Toda a gente sabe que prática, prática, hoje em dia, é numa semana de workshops. O lugar é seu!”

9 comentários:

Hugo Torres disse...

hum... penso que não será um problema a questão do estágio. em parceria com os alunos, o corpo docente pode bem integrar um 'estágio' (de componente muito prática) ao longo dos três anos que agora vai ter o curso. O problema é que para ter tempo para tal e para as aulas são precisos menos copos e viola, e bem mais vontade de fazer coisas, mais sair do modo biblioteca-tempo-de-exames.
concordo contigo quando dizes que a malta de segundo ano vai sair prejudicada. mas 1) a fase de transição tinha que ser feita com alguém e 2) gosto pouco da letargia que assola as alminhas que ficam à espera que o senhor professor faça algo por eles, enquanto aguardam, zangados e refilões, com o rabinho sentado.

desculpa o desabafo mais ríspido.

Rui Afonso disse...

O desabafo não é, de forma alguma, ríspido. Até porque concordo com grande parte do que dizes. Também condeno a letargia da maioria dos estudantes do ensino superior. Acho, apenas, que a transição poderia ser feita de forma diferente. Quem entrou em pré-Bolonha concluiria o curso no modelo antigo e adaptar-se-ia o Processo apenas para os que entram no próximo ano. Mas isso dava mais trabalho aos docentes, não?

Hugo Torres disse...

dava, caro amigo. até porque alguns têm que ser despedidos.
não que já não aconteça - e em muitos casos de forma grave -, mas um ensino superior feito por professores substitutos, fora do lugar, durante os próximos dois, três anos, não seria coisa bonita.

Rui Afonso disse...

A questão continua a ser a mesma, Hugo. E a alternativa? Será bonita?

José Ribeiro disse...

Hugo, o teu desabafo ríspido acaba por cair mal quando lido por alunos do segundo ano, como eu. Dizeres que a transição tinha de ser feita com alguém assenta na habitual ideia do "desde que não seja comigo não há problema"!

Visto que não nos é dada outra opção (em virtude da assinatura do Exmo. Sr. Presidente da República no documento onde se decide que a coabitação dos dois planos curriculares só poderá decorrer durante um ano) a não ser termos de comer Bolonha, não fomos afectados pela letargia que falas. Com o que está ao nosso dispor, elaboramos um documento onde tentamos "salvar a pele" e tentar o menos mal disto tudo. Há no entanto outros condicionalismos. O dinheiro (apesar de ser "nosso") está do lado dos professores e somos obrigados a acatar a maioria das decisões da direcção de curso que são tomadas sem o devido diálogo.

E, já agora, em todo este processo no qual estamos todos inseridos eu pergunto: Podemos fazer uma onda, nestas condições, que altere algo?

A ideia que defendes Ruca, julgo falar por todos do meu ano, seria a do agrado de todos. Saindo mais cedo ou tarde para o mercado de trabalho isso acabaria por ser o mal menor.

Rui Afonso disse...

Caro Zé!

A crítica à letargia do vosso ano está implícita no texto que escrevi. Prezo bem que, por uma vez, se apercebam que há algo mais além dos hábitos diários. O sofrimento vai ser vosso, pelo que devem ser vocês a tentar evitá-lo, de forma consciente e conscenciosa.

Não nos cabe a nós (a mim, ao Hugo Torres, e afins) lutar por direitos que são, à partida, vossos. É esse o vosso papel - uma voz activa dentro da UM, dentro do curso, onde possam reivindicar uma maior ou, pelo menos, melhor atenção. Fica a vosso cargo a defesa dos vossos interesses... que julgo não ver...

Estarei ao lado de qualquer estudante que queira, de uma vez por todas, desmistificar todo o Processo. E quando digo estarei, será de corpo e alma. Até lá, tenho que aquiescer, gosto pouco da letargia que assola as alminhas que ficam à espera que o senhor professor faça algo por eles, enquanto aguardam, zangados e refilões, com o rabinho sentado.

Um abraço

Hugo Torres disse...

camarada Ribeiro, não julgues pela aparência. esse que «assenta na habitual ideia do "desde que não seja comigo não há problema"» não sou eu. sou solidário com a vossa preocupação. e ajudarei, com prazer, qualquer um de vocês que queira assumir uma postura realmente inteligente e capaz neste processo. ajudarei, com prazer, aqueles que deixarem a semântica cuspida de café e arregaçarem as mangas para ver como se faz - não é esse o problema?

depois, o teu comentário faz vista grossa ao problema das decisões que «são tomadas sem o devido diálogo»: tens que lembrar que os mundos político e académico nem sempre têm bons relacionamentos - e este é um desses casos - e a falta de diálogo pode - com certeza - chegar das mais altas patentes governamentais.

Joana disse...

o meu curso também está a ser moldado devido ao processo de bolonha... também perdi disciplinas essenciais, bem como as opções e o estágio... inscrevi-me num curso de 4 anos, com certas e determinadas disciplinas que me possibilitariam trabalhar em áreas especificas e vejo-me agora num curso completamente diferente... acho que bolonha tem as suas vantagens, mas o modo apressado e forçado que estão a implementar não é mesmo o melhor... não há respeito pelos alunos... não nos é pedida opinião para nada e quando tentamos dizer o que quer que seja somos chamados de velhos do restelo...
ah... e não nos deram nenhuma semaninha de workshops... ora isto para quem está em biologia aplicada e quer seguir investigação a nível laboratorial, é complicado não ter algumas aulitas práticas...

Anónimo disse...

concordo plenamente com o que foi referido no teu post pois este processo tem sido uma transiçao tao raida que tem desorientado por completos docentes e discentes... diz-se que Bolonho será uma maneira de combater o ensino especializado americano... e eu pergunto-me: " a concorrencia nao está no nosso pais? dentro da uniao europeia? sem mais assunto me despeço com cumprimentos para todos os alunos de Comunicaçao Social.

Joao Anes, aluno de CS da Escola Superior de Educaçao de Viseu